– Você consegue imaginar quantas
pessoas existem no mundo neste exato momento?
Ele finalmente falou. Já havia
perdido as contas de quanto tempo ele ficou ali, parado, apenas me encarando,
por assim dizer. Nem sei se é possível afirmar isso. Não consigo ver seus
olhos, apenas meu reflexo em seus óculos circulares. Por estranho que pareça,
apesar de ser a primeira vez que o vejo assim, tão perto, não sinto medo, mas
admito que sua presença me incomoda.
– Mais de oito bilhões – ele
continuou – Oito bilhões de pessoas. Você tem alguma noção do que é isso? É
quase inimaginável para alguém como você visualizar um número como este.
– Alguém como eu?
– Não me leve a mal. Não tenho a
menor intenção de ofendê-lo, mas você é uma criatura de pensamento limitado. E
não me refiro apenas a você, esta é uma das maiores e mais evidentes marcas de
sua espécie. O ser humano é assim.
– Se você diz. Aliás quem é você?
– Por que me pergunta o que já
sabe a resposta?
Ele sorriu enquanto eu tentava
analisar um pouco mais meu visitante, aquele homem vestido elegantemente com um
smoking negro, cartola e grandes óculos. Dei de ombros.
– Então no fim você é apenas um
sonho, ou talvez uma alucinação.
– É possível, afinal você nunca
foi um modelo de sanidade, mas acho que me definir como uma mera alucinação, ou
mesmo um sonho, é fazer pouco caso de mim. Não criança, eu sou mais do que
isso... Mas para ser sincero, o que eu sou não importa muito neste momento.
– Talvez então, seja melhor
perguntar por que você esta aqui.
– Diga você.
– Eu?
– Sim você. É a primeira vez na
sua vida que você deixou de me ignorar, que você olhou para mim. Mesmo assim
estou realmente admirado, a maioria das pessoas, principalmente com sua idade,
simplesmente finge que eu não existo até que chegue um momento em que não
conseguem mais. Até que chegue um ponto onde tudo o que reste seja eu.
– Entendo. Mas devo admitir que
até o momento você só levantou mais dúvidas, ao invés de respondê-las.
Ele riu novamente.
– Esse é o problema com vocês.
Estão sempre tão ocupados em busca de respostas. A maioria das vezes, as
questões nem são tão importantes assim. É realmente uma criatura curiosa o ser
humano.
Desta vez eu que não contive o
riso.
– Você fica falando essas coisas
como se tivesse toda a propriedade do mundo, como se fosse uma espécie de deus,
mas até onde que eu saiba você é apenas uma ilusão, uma ideia.
– Sua ideia. Estou aqui porque
você quer que eu esteja. Você se acha muito especial, mas lá no fundo você sabe
que não é. Você é apenas um grão de areia, igual a tantos outros. Eu sou o seu
diferencial. É a minha presença que faz você ser quem você é. É a minha sombra,
que te faz se esforçar pra deixar uma marca no mundo antes que nos encontremos de forma derradeira.
Fico em silêncio. Toda essa
perspectiva me assusta. Nunca tinha parado para pensar em tudo isso, em quanto
tempo ainda me resta. Talvez seja esta a maior maldição do homem. Ter ciência
da morte, mas não saber quando ela virá... Morte, palavra engraçada. Tão
aterrorizadora que preferimos ignora-la, fingir que ela não existe... Mas o
mais gozado, é que quando ela está a sua frente, nem é tão amedrontadora assim.
É apenas um simpático senhor, de smoking negro, cartola, grandes óculos
redondos e segurando um relógio de bolso... Relógio? Sim, há um relógio em sua
mão. Como eu não havia reparado antes?
– Ah, finalmente você o vê? Isso
é bom... Tomou ciência de quem eu sou, mas principalmente de quem você é...
Bom, mas já está ficando tarde e eu sei que você tem outros compromissos.
– Posso te perguntar mais uma
coisa?
– Claro.
– O que eu faço agora?
Mais uma vez ele sorriu, mas
desta vez foi diferente. Nas vezes anteriores havia um cinismo perturbador em
seu gesto. Cinismo este que desapareceu, deu lugar a um sorriso doce, quase que
patriarcal. Eu finalmente pude ver os seus olhos.
– Você não entende criança? Ver
este relógio significa que você agora tem ciência que não é eterno. Que um dia,
seja daqui a cinquenta anos, seja daqui a uma semana, você, como todas as
pessoas, vai morrer. Mas isso tem seu lado positivo. Você pode fazer o que
quiser, sem mais se preocupar com a opinião alheia. Seu mundo é você e ninguém
mais. Isso é liberdade. Vocês são realmente criaturas curiosas...
Ele disse isso enquanto se
desfazia no ar, como fumaça. Acho que voltarei a conversar com ele algum dia,
mas até lá... tenho toda minha vida pra aproveitar.
Arte de Bernardo Fontaniello. Texto publicado originalmente aqui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário