Fim de mais um dia, acabo de
chegar de minha aula e já quase que espero meu inconveniente visitante. Pra
falar a verdade, acho que já estou até acostumado com a presença dele. Abro a
porta de meu quarto... Havia alguém lá dentro, mas não quem eu esperava. Era
uma mulher, de uns vinte e poucos anos, pele clara, cabelos brancos, trajando
um longo vestido negro. O que mais me assustava nela eram seus olhos. Não havia
cores, eram somente brancos, vidrados... Não havia vida em seus olhos. Ela
estava sentada a frente de uma pequena mesa com um jogo de xadrez armado em
cima dela. Quando me viu, ela abriu um sorriso que era um tanto quanto
perturbador. Antes que eu tivesse qualquer chance de perguntar alguma coisa,
ela falou com uma voz extremamente mansa, e surpreendentemente doce.
– Finalmente você chegou. Estava
te esperando.
– Desculpe-me moça, nos
conhecemos?
– Claro que sim. Acho que sou a
pessoa que mais te conhece neste mundo. Você só não está me reconhecendo, mas
não se preocupe isso é algo natural, afinal resolvi vir hoje com uma roupa
diferente do que você está habituado.
O jeito de falar, a maneira
arrogante com que ela me olhava, se é que olhava, até mesmo o sorriso, um misto
de ameaça e cinismo. Não havia dúvidas, aquela mulher era meu companheiro,
mesmo que fosse difícil acreditar.
– Vejo que já me reconheceu...
Isso é bom. Agora por que não se senta, e joga comigo? Aliás bonita roupa,
perfeita para a ocasião.
Mais uma de suas gracinhas. Desta
vez ela havia mudado minhas roupas, só não sei como. Se antes eu estava com
minhas roupas normais, agora eu vestia um fraque, eu acho, branco como o
restante do traje. Em nenhum ponto que pude ver havia qualquer sujeira, por
menor que seja.
– Meio cedo para o ano novo, não
acha?
Meu comentário à fez rir.
– É talvez. Sei que não faz bem o
seu estilo, mas achei que a ocasião pedia algo mais formal. Além disso, você
fica extremamente elegante assim.
– Que seja.
– Bem, por que você não se senta?
As peças brancas são suas, o movimento inicial é seu.
Calmamente me sentei em meu lugar
e fiz meu primeiro movimento.
– Jogar xadrez com a morte, isso
não é meio clichê?
– Um pouquinho, mas pra dizer a
verdade, eu até gosto de clichês. São saídas bem convenientes para determinadas
situações.
– Entendo, mas devo advertir que
este vai ser um jogo extremamente entediante para você, não sou muito bom
nisso.
– Ora, mas não é você que se
orgulha tanto em seu um grande estrategista? Achei que jogasse divinamente.
Aliás, acaba de perder seu bispo.
– E você sua torre – Continuamos
conversando enquanto jogávamos. Acho que nunca me interessei muito em xadrez.
– Entendo.
– Importa-se de me dizer o
significado de tudo isso?
– Por que acha que há um
significado?
– Ora, as roupas, o jogo, as
peças... Meio óbvio não acha? Além disso, com você nada é por acaso, tudo
acontece de um modo especifico por conta do teu querer.
Novamente ela riu. A essa altura,
eu já havia capturado um bispo e um cavalo, em contrapartida, já havia perdido
os dois cavalos.
– Talvez você tenha razão. Lembra
que eu disse que gosto de clichês? Pense bem, não há nada mais clichê que este
jogo. O bondoso e nobre cavaleiro branco mede forças contra o terrível demônio
negro e suas artimanhas. Não consigo pensar em nada mais hollywoodiano que
isso. Uma batalha do bem contra o mal.
– Nunca olhei pra você como uma
representação do mal.
– Sei que não. Mas não me referia
a sua compreensão, me refiro à compreensão geral, a das pessoas a sua volta.
Veja, desde que nasceu você foi criado para ser mais um. Para pensar do mesmo
jeito, para falar do mesmo jeito, para agir do mesmo jeito. Mas você sempre foi
mais rebelde, mais questionador... E por quê? Por minha causa. Por causa da
minha consciência que sempre esteve em você, crescendo, se desenvolvendo. Até
que um dia eu apareci, e te ajudei a quebrar seus grilhões, te tirei do
cabresto. Eu te fiz querer sair da mesmice. Sair do caminho do gado. Aos olhos
da sociedade, eu te denegri, eu sujei o branco de suas roupas. Não importa o
que você pensa sobre mim, aos olhos de todos, eu sou o mal. Xeque.
Meu rei era ameaçado pela torre
dela, não havia muito que fazer. Não podia mexê-lo sem levar o mate. Fiz a
única coisa que podia, coloquei minha dama à frente ao rei. Ao sacrifica-la,
salvei o rei e o jogo, e ainda havia capturado sua torre. Estava sem nenhuma
peça, a ela sobrava à dama.
– Vejo que você não pode mais
vencer.
– É o que parece. Talvez ainda me
reste o empate. Estranho, achei que o bem sempre vencia o mal.
– Não desta vez criança.
Xeque-mate.
Olhei o tabuleiro. Sua dama
estava ao lado do meu rei, qualquer movimento que fizesse, significava a sua
captura, assim como se eu passasse. Se eu comesse a dama, seria capturado pela
torre, não havia o que fazer, já tinha perdido. Espere um momento... Algo
estava definitivamente errado, não havia como ela fazer aquela jogada.
– Você não tinha mais peças, eu
já havia capturado suas duas torres, só restava a dama.
– De fato.
– Você trapaceou então.
– E qual é problema disso? Regras
são feitas para ser quebradas. Você não entende não é mesmo? Esse era um jogo
que você não poderia vencer porque você ainda segue as mesmas regras
empoeiradas, ditadas por tolos. Mesmo tendo perdido o cabresto, você ainda segue
o gado. Mesmo sem os grilhões, você ainda age como um escravo. Mesmo sem a
venda, você mantém os olhos fechados.
Não pude responder. No fundo eu
sabia que nada em minhas atitudes havia mudado. No fundo eu sabia que ela tinha
razão.
– Não se preocupe criança, isso
leva tempo. Tenho fé em
você. Diga-me uma coisa, quem é seu rei?
– Meu rei?
– Sim, veja as peças de seu jogo.
Todas elas se sacrificaram por seu rei. Seus cavalos, suas torres, seus bispos,
seus peões. Todos capturados a fim de assegurar a vitória do rei. Até mesmo a
dama, a mais forte das peças, teve um fim deprimente e patético. Tudo pelo rei.
Pelo que você se sacrificaria criança? Qual é seu rei?
Sem dúvida aquela não era uma
pergunta fácil. Como saber pelo que me sacrificaria. Pelo que entregaria minha
vida. Não, eu estava errado, não era tão difícil assim responder.
– Meu rei são as pessoas que amo
e as ideias em que acredito. Por elas daria minha vida.
– Boa resposta criança. Por isso
acredito tanto em você.
Ela se levantou e se reclinou
levemente em minha direção, beijando meu rosto. Quando se levantou estava em
sua face um sorriso doce. Ela estava preste a ir embora, e
desta vez eu tinha a impressão que aquela seria a última vez que veria minha
visitante... Não, não apenas minha visitante, minha amiga.
– Antes de você ir embora,
gostaria de saber uma coisa. Qual é o seu rei?
Ela desaparecia no ar como
fumaça. Eu já estava vestido novamente com minhas roupas e o sol já nascia.
Perdi totalmente a noção de tempo. Ela sorriu.
– Você é meu rei criança...
Não esperava aquela resposta. Mas
até que era compatível com ela. Imprevisível como sempre. Acho que já era hora
de dormir. Em minha cama um rei preto. Tudo que sobrou daquela noite. Acho que
vou guarda-lo... Como recordação.
Arte de Bernardo Fontaniello.
Arte de Bernardo Fontaniello.

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