Cada vez mais me convenço que habilidade social não é uma das qualidades de minhas alucinações. Pensando bem, esse também não é meu ponto forte, mas ficar me encarando por mais de 10 minutos enquanto escrevo não é lá muito agradável.
– O que você está escrevendo ai?
Algo sobre mim?
– Por que acha que é sobre você?
– E sobre o que mais seria? Cá
pra nós, ultimamente você estava sem ideias... Ai eu apareci. E olha que pra
falar a verdade, acho que essa ideia nem é sua.
– Que?
Ele riu.
– Você talvez tenha visto ou
ouvido algo assim em algum lugar, só não se lembra... É típico do homem fazer
isso. No fim das contas, você realmente acha que aquilo é algo que você criou,
mesmo não sendo.
– Entendo... Eu acho.
– Aliás, pra dizer a verdade, não
acho que você teria a capacidade de criar algo tão complexo quanto eu.
– Você realmente tirou o dia pra
me encher não é mesmo?
– Criança, não é você mesmo que
diz que sou apenas uma alucinação sua. Logo, tudo o que digo, tudo o que sou é
fruto da sua cabeça... Não sou eu que penso assim, é você. Na verdade, nós dois
sabemos que tudo o que eu digo é verdade. Você acha que tem algum talento?
Existem milhões de pessoas no mundo com o dobro... Não, o triplo da sua
genialidade. Comparado a elas, estas palavras desconexas, estas linhas mal
escritas não são nada.
– E daí? Escrevo pra mim mesmo.
Por meus próprios motivos.
– Isso é o que você diz, mas sabe
que não é verdade. Você escreve estas porcarias pras pessoas verem e te
elogiarem. Dizerem que você é um grande escritor, que você tem um grande
talento... Você faz tudo pra chamar atenção. Mas mesmo assim...
– Mesmo assim?
– Eu lhe disse uma vez que ma
definir como uma mera alucinação é quase uma ofensa, lembra-se? Eu disse por um
motivo muito simples... Você não tem controle sobre mim, eu escolhi você. Eu
escolhi falar com você. Você é apenas uma forma de me entreter. Mas devo
admitir que você pelo menos me diverte. Veja eles – Ele apontou a meus colegas
que estavam na sala enquanto eu digito – Cada um deles perdidos em suas
fantasias, assistindo suas caixas de Pandora se abrirem em suas frentes.
Totalmente entediantes cada um deles. E é nesse ponto que vocês se diferenciam.
Você não me irrita... Tanto.
– Caixa de Pandora não é?
– A caixa de todos os males. Você
sabe qual é o maior mal que aflige a humanidade nos dias de hoje?
– Qual?
–A ignorância... Todos estão tão
preocupados com suas vidinhas medíocres que não buscam conhecimento, ou mesmo
compreender outros pensamentos. Sabe qual é o resultado disto? Preconceito,
intolerância, estupidez. Eles pegam algumas palavras escritas em um velho livro
empoeirado e faz daquilo um manual macabro que só sabe perpetuar o ódio e a
escravidão.
– Tenho que admitir que essas
caixas como você as chamam, não ajudam muito.
– Pra dizer o mínimo. Elas
emburrecem ao mesmo tempo em que entretém. Escravizam ao mesmo tempo em que
divertem. Chega a ser amedrontador imaginar aonde isso vai dar. Por isso gosto tanto
de falar com você... Você não é tão alienado. Pelo menos tem alguma
consciência... Talvez mais que alguma.
– Talvez... Quem sabe?
– Em breve saberei... Sou
realmente bom nisso, sou bom em conhecer as pessoas, em entendê-las.
– Não, você não é... Você é
apenas uma alucinação, fruto da minha cabeça, de alguma paranoia ou problema
psicológico meu.
Nesta hora ele pareceu realmente
incomodado com o que eu disse.
– Pare de tentar simplificar
tanto. Nem eu, nem você somos tão simples assim. Sabe disso muito bem.
– Talvez.
– Além do mais, se você estivesse
incomodado tanto assim comigo, sabe muito bem como me mandar embora... Na
verdade é bem simples.
– Basta que eu volte a aceitar as
regras, que eu volte a abrir minha caixa.
– O problema não é a caixa, é o
amor a ela. É a deixar pensar por você, ela tomar suas decisões... Na verdade é
mais simples, é mais fácil assim. Isso me irrita um pouco em vocês... Sempre em
busca dos caminhos mais fáceis. Não se esforçam, tentam sempre dar um jeitinho.
Mas, fazer o que não é? É típico de vocês, de sua espécie.
– De minha espécie... Você adora
usar esse argumento.
– Falha minha. Peço perdão,
talvez seja uma tendência humana generalizar as coisas.
– Humana? Agora você é humano?
Realmente é difícil te entender.
– Isso porque é difícil te
entender... Lembre-se, eu sou parte de você. Mas ao mesmo tempo...
– Ao mesmo tempo você é algo que
eu não controlo.
– Exatamente. Sou como se fosse o
demônio oculto na sua alma. A própria forma como você me vê é suficiente pra deixar a maioria das pessoas
assustadas, mas não com você, acho inclusive que você aprecia minha presença.
Tenho essa impressão. Afinal de contas, não existem muitos os que são como
você. Não são muitos os que têm coragem de se libertarem de suas amarras, de
suas correntes. Aliás, deixe-me mostrar uma coisa. Olhe mais uma vez para eles.
Quando olhei para meus colegas
eles não estavam do mesmo modo. Havia cordões ou fios, sei lá, amarrados em
suas mãos, pés, troncos, cabeças. O mais assustador eram os fios que saiam de
seus olhos, ouvidos e bocas e se entrelaçavam... De fato era uma cena grotesca.
– Agora você entende? Todos
eles... Escravizados, presos a hábitos, rotinas, dogmas. Um grande homem propõe
alguns termos em um contrato e assina com tinta vermelha e por mais de dois mil
anos vocês deturpam suas palavras. E é com base nessa deturpação, nessas
mentiras, que vocês norteiam suas vidas. É triste pensar nisso... Bom, acho que
está ficando tarde, melhor eu ir embora. Se precisar de mais alguma coisa...
Estarei por perto. Até a próxima criança.
Novamente ele esvoaçou no ar,
desapareceu da mesma forma que da última vez. Quanto a mim, simplesmente sai da
frente da TV.
Arte de Bernardo Fontaniello. Texto publicado originalmente aqui.
Arte de Bernardo Fontaniello. Texto publicado originalmente aqui.

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