Outro terrorista maluco que ganha
às páginas dos jornais. Desta vez foi um atentado à bomba que atingiu um evento
qualquer que acontecia em... Onde mesmo? Nem sei mais. Parece já ter virado um
hábito, nem nos surpreendemos. Agora começa tudo de novo, um grupo radical
assumirá a autoria do ataque, simpatizantes queimaram bandeiras em celebração,
a ONU, o Vaticano e uma infinidade de políticos e ONGs sem importância condenaram
o atentado e por fim um governo totalitário vestido de trajes democráticos
atacará ferozmente um país cheio de água negra com a desculpa que a guerra
manterá a paz. Meio ridículo se você pensar bem... Diante de tudo, foi
impossível conter meu assombro.
– Meu Deus.
– Deus? Não sabia que você era do
tipo religioso.
Desta vez admito que ele
conseguiu me assustar. Não foi o fato de ele ter surgido do nada ao meu lado,
já havia me acostumado com isso. É que desta vez ele não estava como sempre,
parecia mais sombrio eu acho. Suas roupas, seus modos, até suas expressões
estavam estranhas, desgastadas eu acho. Eu não sabia bem o que era, mas tinha certeza que havia algo
diferente em meu convidado...
– Então é de religião que iremos
tratar hoje?
– Para ser sincero prefiro evitar
esse tema, não gosto de falar a respeito de bobagens. Além do mais, tive muito
trabalho hoje.
– Sim, eu vi nos jornais.
– Imagino que sim. É incrível,
mas a estupidez humana consegue me surpreender a cada dia. Olha, achei bem interessante que a primeira coisa que ouvi de você hoje, foi um
clamor a uma divindade.
– Por quê? Pelo que sei, esta é
uma expressão bem comum.
– Por isso mesmo. Ela é
extremamente comum... É engraçado pensar o quanto a figura de deus está ligada
a cultura humana. Acho que vocês dão créditos demais a algo que pode nem
existir.
Ri enquanto ele falava.
– Achei que não quisesse falar de
religião.
– Mudei de ideia.
– Entendo. Você não crê em Deus?
– Sabe, não sei ao certo. Acho
que não consigo crer naquele deus que é passado pelas religiões modernas. Ele
me parece tão... Cruel. Veja por exemplo o cara que orquestrou este ataque.
Quem você acha que deu as ordens a ele?
– Deus?
– Pelo menos na cabeça dele, sim.
Pense bem, é possível que ele achasse que era apenas um instrumento nas mãos de
uma força maior. Logo, quem foi o responsável, a peça ou o jogador.
– Pode até fazer sentido, mas até
onde que eu sei, nenhuma religião endossa atos como estes.
– Mais ou menos. Essas ideias que
discutimos por exemplo. Imagine que elas alcançassem um grande número de
pessoas, quantas interpretações diferentes teriam? Interpretações que muitas
vezes não teriam nada haver com você ou comigo. Com as religiões é assim. Alem
do mais, o ser humano tem certa tendência ao caos e ao ódio. Por isso a figura
de deus existe, e mais, por isso que o inferno existe... Se não fosse assim,
não tenho dúvidas que vocês já teriam se destruído há muito tempo. Deixe-me dar
uma visão mais ampla disso tudo.
Neste momento ele colocou uma
espécie de manto ou véu diante de meus olhos, impedindo minha visão. Quando ele
retirou, instantes depois, não estava mais em meu quarto. Estava em um tipo de
laboratório, daqueles onde se fazem os experimentos e testes que as entidades
de proteção dos animais tanto odeiam. A minha frente havia uma redoma de vidro
dividida em duas por uma tabua negra. Dentro havia dois grupos de ratos, cada
um de um lado, um branco e outro negro.
– Que espécies são estas?
– Não me admira que você não
conheça. É uma espécie nova, mais inteligente e evoluída em comparação as
demais... Bom, mais ou menos. Eu batizei de Rattus
Sapiens.
– Rattus Sapiens? Olha sutileza não é seu ponto forte. Mas me diga
uma coisa. Até onde eu sei, testes assim são feitos com camundongos.
– Realmente, mas como eu disse
esta é uma espécie nova, e se encaixa melhor no meu experimento por conta de
uma característica que você achará bem interessante. Veja só.
Ele retirou a tabua que separava
os dois grupos de ratos, expondo um ao outro. Em poucos instantes, os ratos se
amontoaram em torno de seu próprio grupo, tomando o máximo de distância
possível entre eles e ficaram se encarando, nenhum deles tinha coragem de sair
de seu próprio amontoado. Mesmo sendo da mesma espécie, nenhum deles tinha
coragem de interagir com o outro grupo.
– Viu só? A desconfiança e o medo
pairam em ambos os grupos, mesmo eles sendo basicamente iguais, só mudando a
cor. Agora veja o que acontece com todo esse medo quando existe certa...
Motivação em jogo.
Neste instante, meu companheiro
colocou no meio da redoma um prato cheio de grãos, suficientes para alimentar
os dois grupos com facilidade e ainda sobrar. Mesmo assim, no momento que viram
o prato com a comida, o comportamento mudou. As duas populações avançaram
ferozmente em direção ao prato, mas ao invés de simplesmente comerem juntos,
começaram a se atacar, com as unhas e as presas, visando matar os rivais. Ao
fim de dez minutos, restavam somente um rato branco que ainda lutava contra
dois ratos negros. Entretanto, os três estavam tão machucados, que parecia
impossível para qualquer vencedor aproveitar os despojos. Eles iriam morrer, e
o prato permaneceria cheio, do mesmo modo que quando o conflito começou.
– Realmente incrível.
– Não é? Acho que me enganei...
Qualquer outra espécie iria ficar feliz em dividir o alimento, desde que também
se alimentasse. Estes pequenos ratos não. Preferiram morrer a aceitar a
presença do outro. Talvez eles não fossem tão evoluídos assim...
– Acho que não.
Dito isso, tudo ao meu redor se
fragmentou. Estava de volta ao meu quarto. Meu companheiro parecia ter
recuperado a feição serena que lhe era de praxe.
– Sabe... Talvez eu também
estivesse errado sobre Deus. Talvez ele até exista... Acho que ele só está com
muito medo de vocês.
Ele se sentou ao meu lado, na
tela do meu computador uma nova notícia. Cinco pessoas da mesma família haviam
sido mortas em uma chacina em São Paulo. Segundo a polícia o motivo do crime
foi um desentendimento com um dos vizinhos por conta de um jogo de futebol... Rattus Sapiens... Realmente sutileza não
é o forte dele.
Arte de Bernardo Fontaniello. Texto publicado originalmente aqui.
Arte de Bernardo Fontaniello. Texto publicado originalmente aqui.

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